domingo, 15 de novembro de 2009

A Visível Invasão dos Alienígenas Alienantes (ou: Como A Sociedade Tentou Me Tornar Adulto)

(Cai o pano
Os queixos e as máscaras também)

Respeitável público e respeitável privada,
Ponham as crianças na sala e arrebanhem toda a cambada
A história que irei contar não é recomendada para pessoas
Com problemas de hipertensão,
Males do coração
Ou falta de imaginação
Peço que confiem em meu singelo relato,
Pois tudo que vos digo são apenas os fatos
Por favor, acreditem neste humilde vagabundo,
Pois contar-lhes-ei a história de como a realidade invadiu o meu mundo

Gosto de brincar
Com a língua de Camões e de Caminha,
Mas gosto também de brincar,
De enroscar tua língua na minha.
Chamam-me de radical,
Mas nada mais sou que um produto
Do meio ambiente,
Do meu ambiente completo.
Do meio,
Do terço,
Do quarto,
Da sala confessionária,
Do jardim que não tive na infância
– pois o concreto invadiu minha casa.
O concreto concreto,
Aquele que privou-me do meu jardim,
Mas também o concreto abstrato,
Aquele que tomou conta de mim
E que acabou por me mostrar
que os conflitos do Oriente Médio
talvez fossem mais graves que os da Terra-Média,
E que se eu ficar pensando em Frodo, eu só me…
Falácias! Mentiras.
Sociedade falaciocêntrica,
ou talvez seja falocêntrica,
centrada em pênis e penas apenas.
Apesar dos pesares, parei,
Pensei,
Cansei.
Não sei… Difícil parar pra pensar
Quando o mundo não pode parar.
Começa o ataque.
Ideais alienígenas
Tentam me alienar.
Informe-se do mundo à sua volta
Pra passar no vestibular.
Os mais doces bárbaros e bardos baianos barbados morreram na guerra.
Não na guerra do Oriente Médio,
Nem na da Terra-Média,
Mas na guerra contra os alienígenas
– aqueles que invadem mentes e inutilizam corpos.
Com sacrifício constatei:
A feliz idade acabara, feliz a cidade ficara.
Exilei-me do meu jardim,
Isolei-me dentro de mim.
Meus genes me fizeram assim, meus genitores me deixaram assim.
E sim, assim, sem eira, nem beira,
Encontro-me num pós-apocalíptico cenário de invasão
Canto,
Grito,
Choro,
Mas não consigo dar vazão,
E nem mesmo achar razão ou talvez tesão
Nas coisas que encontro na tal televisão
O babaca é bacana
O legal é banal
E é legal se é ilegal
Adiante, adultos adúlteros adulteram a Alvorada
E adolescentes adoecem de mentes limitadas
Bombeiros bombados babando por bundas
E as bandas, e as bombas
E as minhas pernas bambas como bambu
Hipérboles, eufemismos e eumachismos
Eu, Robô.
(Conjuga-se “eu roubei”,
Mas permaneci impune.)
Tento pegar um avião,
Mas meus pés foram atados ao chão,
Como uma arma para lobotomizar minh’alma.
Sem visto, desisto.
Faminto de conhecimento,
Vou numa lanchonete self-service
E me sirvo-me a mim mesmo.
Degusto-me,
Desgosto-me,
Regurgito-me.
O cúmulo.
O túmulo,
O fim, enfim.

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